Ele está lá: As múltiplas facetas de Bob Dylan

Ensaio do Mês

Robert Allen Zimmerman nasceu na cidade Duluth, no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos, no dia 24 de maio de 1941. Cantor, compositor, escritor, ator, pintor e ativista, ele se tornou ao longo dos últimos 60 anos, um dos nomes mais importantes, premiados e influentes da cultura mundial.

Em Crônicas – Volume 1, autobiografia lançada em 2004, ele explica como surgiu seu conhecido nome artístico: “Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylan e Allyn era parecida. Robert Dylan. A letra D tinha mais força. Entretanto, o nome Robert Dylan não era tão atraente como Robert Allyn. As pessoas sempre haviam me chamado de Robert ou Bobby, mas Bobby Dylan me parecia vulgar, além disso já havia Bobby Darin, Bobby Vee, Bobby Rydell, Bobby Neely e muitos outros Bobbies. A primeira vez que me perguntaram meu nome, instintiva e automaticamente soltei: Bob Dylan”.

Dylan gravou desde 1962 um total de 38 álbuns de material inédito, fora as compilações e os ao vivo. Nove fazem parte da lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos eleitos pela revista especializada Rolling Stone: The Freewheelin’ Bob Dylan (1963), Highway 61 Revisited (1965), Blonde on Blonde (1966), John Wesley Harding (1967), Blood on the Tracks (1975), The Basement Tapes (1975), Desire (1976), Time Out of Mind (1997) e Love and Theft (2001).

Como pintor e desenhista ele lançou, em 1994, a obra Drawn Blank, um livro de desenhos. O material desse livro, composto por 175 trabalhos em aquarela e guache, foi exposto em um importante museu da Alemanha. Já como escritor, seu primeiro livro foi Tarântula, que ele escreveu em 1966 e veio a publicar cinco anos depois, em 1971. A edição brasileira saiu em 1986 pela Editora Brasiliense. Suas letras de músicas também viraram livros. No Brasil, o primeiro volume delas, Bob Dylan: Letras (1961-1974), traduzidas por Caetano W. Galindo, foi publicado pela Companhia das Letras, em 2017. O Bob Dylan: Letras (1975-2012) está previsto para chegar às livrarias brasileiras ainda em 2021. E, claro, o já citado Crônicas – Volume 1.

Sua canção Like a Rolling Stone, que faz parte do disco Highway 61 Revisited, de 1965, é considerada a mais importante dentre suas composições e uma das mais emblemáticas da história da música popular mundial. O jornalista americano Greil Marcus escreveu em 2005 o livro Like a Rolling Stone: Bob Dylan na Encruzilhada, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em 2010, onde analisa profundamente essa canção, que é um verdadeiro divisor de águas na obra de Dylan e se tornou um hino da contracultura.

Bob Dylan também foi objeto de importantes obras cinematográficas. A primeira delas ocorreu em 1967, quando o americano Donn Alan Pennebaker, ou simplesmente D.A. Pennebaker, um dos maiores documentaristas do mundo, realizou Bob Dylan: Don’t Look Back.

Pennebaker é adepto do chamado “cinema direto”, “cinema verdade” ou cinéma vérité, termo criado no final dos anos 1950 pelo francês Jean Rouch. Na verdade, essa maneira de documentar a realidade já existia desde os anos 1920. O russo Dziga Vertov, de Um Homem Com Uma Câmara, (Chelovek s kino-apparatom, 1929) foi quem primeiro teorizou sobre isso. Seguido pelo americano Robert Flaherty e seu Nanook: O Esquimó (Nanook of the North, 1922).

Pennebaker começou sua carreira dirigindo curtas em 1953. Fez alguns trabalhos para a televisão e em 1965 acompanhou Bob Dylan em sua turnê pela Inglaterra. Usando uma câmara leve e com total liberdade e intimidade, ele registrou um momento crucial na carreira do artista e, de quebra, realizou aquele que é considerado não só o melhor documentário de todos os tempos, como também o precursor de todos os documentários sobre música.

A influência de Bob Dylan: Don’t Look Back é visível em quase tudo que foi feito a partir daí. Seja você fã de cinema ou de Bob Dylan, este filme é simplesmente obrigatório e é uma das inspirações do cineasta Martin Scorsese, que nunca escondeu de ninguém sua paixão pela música em geral, e pelo rock em particular, para os documentários que viria a fazer sobre seu ídolo.

As trilhas sonoras de seus filmes, na maioria das vezes, possuem algum clássico do gênero. Paralelo a isso, Scorsese sempre se envolveu, seja como montador, produtor ou diretor, em inúmeros projetos que abraçavam a música. E isso começou cedo. Seu primeiro trabalho profissional foi na sala de montagem do filme que documentou o Festival de Woodstock.

Em No Direction Home a estrela é Dylan. O documentário tenta desvendar o mito e a extraordinária trajetória do músico, desde suas raízes no seu estado natal, Minnesota, passando por suas primeiras aparições nas cafeterias do Greenwich Village, em Nova York, até sua tumultuada ascensão ao estrelato em 1966.

Trata-se basicamente de material de arquivo que Scorsese garimpou como poucos e nos apresenta de maneira vigorosa e apaixonada, com algumas cenas raras, nunca vistas, tanto de apresentações ao vivo quanto de entrevistas, com o recluso astro da música. Um filme que captura a ebulição criativa e o momento mais crucial da carreira de Dylan.

O mesmo Scorsese revisitou Bob Dylan em Rolling Thunder Revue, de 2019. O convite veio do empresário do artista que entregou a ele sobras do filme Renaldo e Clara, que o próprio Dylan dirigiu em 1978 a partir de imagens documentas na grande turnê que fez por diversas cidades americanas em 1975.

Scorsese utilizou aqui esse farto material de arquivo junto com depoimentos, alguns reais outros fictícios, e ilustra um momento crucial da carreira de Bob Dylan e, por tabela, dos Estados Unidos. Misto de documentário e show musical, Rolling Thunder Revue é um presente mais que especial para os fãs de Dylan e outros grandes artistas que o acompanham na turnê.

Mas Bob Dylan não se limitou apenas ao papel de figura ilustre retratada em documentários. Ele também atuou em alguns filmes, como em Pat Garrett e Billy the Kid, dirigido em 1973 por Sam Peckinpah. A obra exala poesia e música em todos os fotogramas. Contrariando as expectativas, o diretor troca a violência pelo lirismo e realiza um filme complexo e cheio de camadas. E Dylan faz uma participação mais do que especial, além de ter composto a trilha sonora e tocado uma de suas canções mais famosas, Knockin’ on Heaven’s Door.

Há que se destacar da mesma forma as inúmeras referências aos seus álbuns ou canções, como a capa do disco The Freewheelin’ Bob Dylan, reproduzida pelo casal Tom Cruise e Penélope Cruz no final do filme Vanilla Sky, dirigido por Cameron Crowe, em 2001. Esse álbum, em particular, é o mais referenciado dentre todos os lançados pelo artista.

O Dylan ativista participou de passeatas e movimentos os mais diversos, seja presencialmente ou através de suas canções de protesto, como Hurricane, do álbum Desire, de 1976, que compôs em homenagem ao pugilista Rubin “Hurricane” Carter, preso por um crime que não cometeu em mais um flagrante caso de preconceito racial da polícia e da justiça americanas.

E não podemos esquecer do único acerto musical da trilha sonora de Watchmen, que Zack Snyder dirigiu em 2009. A quase totalidade das canções utilizadas são escolhas óbvias para as cenas em que aparecem. Com exceção de The Times They Are A-Changing, de Dylan, que toca na bela e concisa abertura, as demais se revelam, em sua maioria, inadequadas.

Mas todas as informações acima, na verdade, servem como alicerce para Não Estou Lá, talvez a mais bela e original homenagem a Bob Dylan, feita pelo cineasta americano Todd Haynes, em 2007.

Haynes se envolveu com o audiovisual ainda na adolescência. Aos 17 anos ele escreveu, dirigiu e produziu O Suicídio, seu primeiro curta-metragem. Depois, quando estudava Artes e Semiótica na Universidade Brown, realizou seu segundo curta, sobre o poeta francês Rimbaud, em 1985. Dois anos depois, ele chama a atenção com seu terceiro curta, Superstar: The Karen Carpenter Story, feito inteiramente com bonecas Barbie.

Em 1991 veio a estreia em longas, com Veneno. O interesse pelo mundo musical voltou em 1998, no terceiro longa, Velvet Goldmine, lançado pela Versátil dentro do box Música no Cinema, uma disfarçada cinebiografia de David Bowie. A mesma inventividade está de volta em Eu Não Estou Lá, que ele escreveu junto com Oren Moverman. Dessa vez, o foco é Bob Dylan e, mais uma vez, Haynes esbanja criatividade.

O filme “passeia” por diversas fases da vida do artista e traz seis atores interpretando o “filho mais ilustre de Duluth”. São eles: Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e Cate Blanchett. Todas as facetas de Dylan se fazem presentes.

Premiado no Festival de Veneza daquele ano, Eu Não Estou Lá não só presta uma grande homenagem ao compositor de Like a Rolling Stone, como é também uma espécie de compêndio do universo do cineasta.

Bob Dylan, além de ter entrado em 1988 para o Rock and Roll Hall of Fame, é o artista do entretenimento mais laureado no mundo todo. Em pouco mais de 60 anos de carreira foi vencedor do Grammy (em 1991 pelo conjunto da obra); do Globo de Ouro e do Oscar (ambos em 2001 pela canção Things Have Changed, do filme Garotos Incríveis, de Curtis Hanson).

No campo literário, Dylan recebeu uma honraria especial do Pulitzer, em 2008, “por seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de poder poético extraordinário”); e o Nobel de Literatura, concedido em 2016 pela Academia Sueca, por “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”.

Isso sem contar o prêmio espanhol Príncipe das Astúrias, entregue em 2007 por sua contribuição à cultura; e a Medalha Presidencial da Liberdade dada, em 2012, pelo presidente americano Barack Obama. Como diz Mick Jagger ao final da versão dos Rolling Stones para Like a Rolling Stone: “thank you, Bob”.

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Last modified: 8 de novembro de 2021

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