O caráter alegórico e revolucionário de Matar ou Morrer

Ensaio do Mês

A frase “todo bom filme é também um documento de sua época”, dita pelo diretor francês Eric Rohmer, reflete com perfeição o que vemos em Matar ou Morrer, dirigido em 1952 pelo austro-húngaro naturalizado americano Fred Zinnemann. O roteiro enxuto de Carl Foreman se inspirou no conto The Tin Man, escrito por John W. Cunningham e publicado no Collier’s Magazine, em 1947. O produtor Stanley Kramer comprou os direitos da história e iniciou a pré-produção de uma adaptação cinematográfica para a United Artists. Zinnemann esteve envolvido com o projeto desde o início e contou com a liberdade que somente um filme independente era capaz de proporcionar.

A época em questão era a do Macartismo, que vigorou nos Estados Unidos de 1950 até 1957 e foi capitaneada pelo senador Joseph McCarthy, responsável pela criação do Comitê de Atividades Antiamericanas, que procurava combater o que ficou conhecida como Segunda Ameaça Vermelha, ação que de acordo com McCarthy estava infiltrada em Hollywood e abriria as portas do país para a invasão comunista. Para evitar esse avanço soviético, qualquer artista que, em algum momento de sua vida, tivesse feito parte do Partido Comunista ou tivesse demonstrado simpatia pela ideologia comunista era considerado suspeito.

Cabe aqui destacar que o Macartismo não surgiu do nada. Havia o contexto histórico surgido após o fim da Segunda Guerra Mundial e início da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, as duas superpotências vencedoras do conflito. O mundo ficou então dividido entre o capitalismo dos americanos e o comunismo dos soviéticos. Mas é possível encontrar suas raízes na sistemática perseguição empreendida por J. Edgar Hoover, o temível chefão do FBI, contra Charles Chaplin a partir dos anos 1930.

O roteirista Carl Foreman se enquadrava no perfil elaborado por McCarthy. Afinal, ele tinha sido filiado ao Partido Comunista e apesar de já ter escrito 11 roteiros sem referência ideológica alguma em dez anos de carreira, seu nome foi citado nas audiências promovidas pelo Comitê. Foreman sabia que era uma questão de tempo ser convocado a depor. Com isso em mente, ele viu na trama de Matar ou Morrer a chance de fazer uma alegoria do tenso momento que seu país e ele próprio viviam.

O roteiro ficou pronto e o papel principal foi oferecido primeiro a Gregory Peck, que recusou por achá-lo muito parecido com O Matador (The Gunfighter), de Henry King, que ele acabara de estrelar. Tempos depois, Peck revelaria ter se arrependido, uma vez que o filme faz uma forte crítica ao Macartismo que ele tanto combateu. Com a recusa de Peck, Kramer procurou então Charlton Heston, Marlon Brando, Kirk Douglas, Montgomery Clift, Burt Lancaster e John Wayne. Todos recusaram o convite por diferentes razões e Wayne recusou por não ter gostado do roteiro e considerá-lo declaradamente um filme antiamericano.

O estúdio queria um nome conhecido à frente do elenco e alguém sugeriu Gary Cooper, que estava com a carreira em declínio e enfrentava alguns problemas de saúde. Ele renunciou a seu cachê habitual, na casa dos 250 mil dólares, e aceitou receber apenas 60 mil dólares e um percentual da bilheteria. Cooper acreditava que aquela poderia ser a oportunidade de recuperar seu prestígio na indústria. Isso terminou acontecendo. Matar ou Morrer foi um grande sucesso de bilheteria e ainda lhe rendeu um Oscar de melhor ator. Ironicamente, Cooper não pôde comparecer à cerimônia para receber o prêmio, que foi entregue ao seu amigo John Wayne, inimigo ferrenho do filme.

O orçamento, de 700 mil dólares, era bastante apertado. Até para os padrões da época. Zinnemann optou por filmar inteiramente em estúdio e em preto e branco para baratear os custos. Além disso, os enquadramentos foram pré-definidos em um detalhado storyboard. Isso garantiu um rápido processo de filmagem que se estendeu por exatas quatro semanas.

Matar ou Morrer é um western atípico e um filme revolucionário. A ação se passa ao longo de aproximadamente 80 minutos, no pequeno povoado de Hadleyville, em uma quente manhã de domingo. Tudo começa pouco antes das 11 horas e se estende até pouco depois do meio-dia (daí o título original High Noon). O xerife Will Kane (Cooper) acabou de se casar com a bela Amy (Grace Kelly, em seu primeiro papel de destaque) e fica sabendo que o famigerado criminoso Frank Miller (Ian MacDonald), está solto. Kane o prendeu anos atrás, mas após cinco anos preso Miller está livre e a caminho da cidade. Ele chegará no trem das 12 horas para cumprir seu desejo de vingança.

O diretor Fred Zinnemann decidiu contar essa história em tempo real. Não por acaso, diversos relógios aparecerem em muitas cenas pontuando o passar dos minutos. Isso cria a tensão necessária, reforçada pela criativa montagem de Elmo Williams e Harry Gerstad, premiada com o Oscar da categoria. Zinnemann também optou por planos fechados e close ups para ilustrar o calor daquele dia quente e o desespero do xerife. Já os planos abertos, feitos a partir de uma grua, destacam o isolamento cada vez maior de Kane naquele lugar.

Kane é aconselhado a ir embora e até o faz, após entregar sua estrela de xerife e sair do povoado com sua esposa. Mas, rapidamente, ele muda de ideia e retorna para enfrentar a situação. Ao voltar, recoloca sua estrela de lata no peito e inicia a procura por ajudantes entre os moradores. Surpreendentemente, todos se negam a ajudá-lo. E a cena na igreja é bastante emblemática da postura da comunidade que, minutos antes havia elogiado seu trabalho. Um deles até disse que Kane foi o melhor xerife que aquele lugar já teve ou terá.

O ministro fala: “os Mandamentos dizem ‘não matarás’, mas nós contratamos homens para sair e fazer isso por nós. O certo e o errado parecem muito claros para mim aqui. Mas se você está pedindo para que eu diga ao meu povo para sair e matar e talvez ser morto, sinto muito. Eu não sei o que dizer. Sinto muito”. Pouco antes, o antigo xerife havia dito “você arrisca sua pele capturando assassinos e os juízes os soltam para voltarem e atirarem em você novamente. Se você for honesto será pobre por toda a vida e no final acaba morto e sozinho em alguma rua suja. E para quê? Por nada. Por causa de uma estrela de lata. As pessoas conversam entre si sobre lei e ordem antes de fazerem qualquer coisa. Talvez porque no fundo elas não se importem. Elas simplesmente não se importam”. Já o próprio juiz completa: “esta é uma pequena e suja cidade no meio de lugar nenhum. Nada do que acontece aqui realmente importa”.

Essa sensação foi experimentada por Carl Foreman, que se viu abandonado por seus colegas de ofício. E quando finalmente foi convocado para depor perante o Comitê, se negou a delatar seus amigos. Isso resultou na inclusão de seu nome na famigerada “lista negra” e, consequentemente, em sua demissão da equipe antes do término das filmagens. Foreman se mudou para a Inglaterra, onde deu continuidade ao seu trabalho e veio a ganhar, em 1957, um Oscar pelo roteiro adaptado de A Ponte do Rio Kwai, de David Lean.

Mas a polêmica em torno de Matar ou Morrer não se limitou ao período de sua produção. Quando de seu lançamento o filme dividiu opiniões. Algumas delas bastante exaltadas, como as de John Wayne e do diretor Howard Hawks. Ambos declararam imenso desprezo pela obra de Zinnemann e chegaram a realizar, em 1959, outro clássico do faroeste, Onde Começa o Inferno (Rio Bravo). A intenção da dupla era contrapor o comportamento de Kane e da população de Hadleyville mostrados no filme de 1952. Wayne, em particular, odiava principalmente a cena final de Kane jogando a estrela de xerife no chão e indo embora. Polêmicas à parte, não posso deixar de mencionar a bela trilha sonora composta por Dimitri Tiomkin, autor também, junto com Ned Washington, da canção High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darling), cantada por Tex Ritter, cuja a letra resume bem o clima do filme. Tanto a trilha sonora como a canção ganharam o Oscar em suas respectivas categorias.

Matar ou Morrer tinha tudo para se transformar em um grande fracasso. Afinal, foi filmado em preto e branco quando a maioria dos filmes era colorido. Tinha à frente do elenco um ator conhecido, mas que não estava no melhor momento de sua carreira. Além disso ele interpreta um xerife que passa boa parte da história tentando encontrar alguém que o ajude a enfrentar o bandido que quer matá-lo. A ação é mais psicológica do que física e quando essa fisicalidade finalmente chega, no terceiro ato, muitos a consideraram rápida demais. Mas o que poderia ter causado sua ruína nas bilheterias, no final, se revelou sua grande fortaleza e influenciou gerações de cineastas e cinéfilos mundo afora.

Essa influência pode ser percebida em diversas outras obras que passaram a utilizar o Velho Oeste como metáfora para debater questões sociais, políticas e comportamentais. No Brasil o filme ganhou uma paródia produzida dois anos depois pela Atlântida. No caso, Matar ou Correr, dirigido por Carlos Manga e com Oscarito e Grande Otelo no elenco. Em 1981, Outland: Comando Titânio, ficção-científica de Peter Hyams, colocou Sean Connery em uma situação semelhante à de Will Kane. Passadas quase sete décadas de seu lançamento, Matar ou Morrer permanece respeitado como um dos maiores westerns de todos os tempos. A crueza de seu roteiro, lapidado com precisão por Carl Foreman; em harmonia com a produção econômica e eficiente de Stanley Kramer; a direção criativa de Fred Zinnemann; o elenco afiado encabeçado por Gary Cooper; a estupenda fotografia de Floyd Crosby; a fantástica montagem de Elmo Williams e Harry Gerstad; fechando com a bela música de Dimitri Tiomkin fazem dele uma verdadeira e eterna obra-prima do cinema.

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Last modified: 9 de outubro de 2021

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