Sobre assentos numerados e filmes dublados

Crônica 7

Podem me chamar de velho saudosista. Eu sou do tempo em que ir ao cinema era quase um ato sagrado. Naquela época, não havia assentos numerados. Quem chegasse mais cedo à sala escolhia onde se sentar. Eu sempre gostei de ficar mais ou menos no meio, tipo fileiras F, G ou H, cadeiras 7, 8 ou 9, pelos padrões atuais.

Porém, o que eu mais gostava era de ver todo o ritual antes de o filme começar. Por exemplo, quando entrávamos no cinema, a cortina da tela estava fechada. Ao chegar a hora de começar a projeção do filme, uma sequência de sinos tocava e a cortina começava a abrir lentamente. Ao mesmo tempo, as luzes começavam a se apagar. Tudo ficava escuro e, de repente, um facho de luz iluminava a tela. Era simplesmente mágico. A sensação que eu tinha era a de estar entrando em um outro mundo ou dimensão. E o melhor de tudo: os telefones celulares não existiam ainda.

Não pense que sou contra os avanços tecnológicos. Muito pelo contrário. Apenas defendo veementemente que celular não combina com sala de cinema. Nem que seja só para olhar as horas. Tenho até uma teoria para a crescente onda de preferência por filmes dublados. Como boa parte dos espectadores quer continuar escrevendo comentários e verificando as postagens dos outros nas redes sociais, estejam eles onde estiverem, se o filme for dublado, o sujeito poderá digitar sem olhar para a tela e acompanhar a trama apenas pelo áudio, já que não precisará ler as legendas. Reconheço que essa teoria não tem fundamento científico que a comprove. Minha percepção é apenas empírica. Mas tem uma certa lógica, não tem?

Quanto aos filmes dublados, e reconheço aqui a excelência de nossos dubladores, não gosto de vê-los por uma questão bem simples: prefiro sempre ouvir a voz original dos atores. Não importa qual seja o idioma. A voz do ator e sua entonação, inflexão e até a respiração são elementos essenciais da interpretação. E qualquer dublagem, por melhor que seja, não consegue reproduzir/traduzir essa maneira única de falar e atuar.

Essa discussão me remete a uma outra. Lembro que em um passado não muito distante as pessoas costumavam se queixar da qualidade do som dos filmes nacionais. Era comum o seguinte argumento: filme brasileiro não presta, o som é horrível, a gente não entende nada dos que eles falam. O problema, meus caros, não era dos nossos filmes. O problema era simplesmente causado pelas péssimas condições dos equipamentos de som da salas de cinema. Aí você poderia me dizer: mas eu entendia tudo dos filmes americanos. Claro que sim. Eram legendados. Caso queira tirar a prova veja um filme brasileiro dos anos 1970, Dona Flor e Seus Dois Maridos, por exemplo, dirigido em 1976 por Bruno Barreto. Ou Terra em Transe, feito por Glauber Rocha em 1967. Ou ainda O Pagador de Promessas, de 1962, de Anselmo Duarte. Se quiser ir mais longe, veja O Cangaceiro, realizado em 1953 com direção de Lima Barreto. Garanto que você escutará e entenderá todos os diálogos de qualquer um desses filmes que eu citei e de quaisquer outros feitos nesse período.

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Last modified: 28 de setembro de 2021

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