De Sica, o neorrealismo e o impacto de Ladrões de Bicicleta

Ensaio do Mês

O professor americano David Bordwell, um dos principais pensadores do Cinema no mundo, escreveu obras fundamentais que permitem nos aprofundarmos na Sétima Arte. Dois desses livros, A Arte do Cinema: Uma Introdução e A História do Filme, apresentam uma análise apurada do contexto histórico e cultural que propiciou o surgimento do Neorrealismo italiano.

Bordwell ressalta que durante os anos de declínio do fascismo, um impulso realista surgiu na literatura e nos filmes italianos. “Nós estamos convencidos”, escreveu Giuseppe De Santis e Mario Alicata em 1941, “que um dia nós criaremos nosso mais belo filme seguindo o passo lento e cansado do trabalhador que retorna para casa”. Obsessão, dirigido em 1943 por Luchino Visconti, fez com que alguns cineastas vislumbrassem um novo cinema.

Na primavera de 1945, a Itália reconquistou sua liberdade. Partidos formaram um governo coaliado e almejaram transformar as ideias da esquerda-liberal nas bases de uma nova Itália, renascida. Os cineastas italianos testemunharam o que era chamado de Primavera Italiana. O “novo realismo” imaginado durante os anos da guerra tinha chegado. O que fez esses filmes parecerem tão realistas? Em parte, o contraste com muitas das obras que os precederam.

O cinema italiano tinha se tornado conhecido em toda a Europa por conta de seus magníficos estúdios. Mas o maior deles, a Cinecittà, fora bastante danificado durante a Segunda Guerra Mundial e não suportava mais as grandes produções do passado. Restou aos cineastas filmar nas ruas, no campo e trabalhar com pessoas do povo.

Com a queda de Mussolini, aponta Bordwell, a indústria cinematográfica italiana perdeu seu centro organizacional. Assim como na Alemanha, as forças militares aliadas na Itália cooperaram com as companhias americanas na tentativa de assegurar a dominação de Hollywood no mercado. Quase todas as empresas de produção viraram pequenos negócios. Enquanto companhias domésticas debatiam-se, o cinema neorrealista emergiu como uma força de renovação cultural e mudança social.

É feito então, em 1945, Roma, Cidade Aberta, filme-marco do novo movimento. Seu diretor, Roberto Rossellini, criou uma trama inspirada em eventos reais e bem recentes. Suas personagens lutavam contra as tropas alemãs que ocupavam Roma. Confiança e auto sacrifício uniram Manfredi, Francesco, Pina e o padre Don Pietro. Com esse importante filme nasceu um novo cinema na Itália e o mundo ganhou um movimento cinematográfico de influência marcante e duradoura. O objetivo era realizar filmes que mostrassem a realidade do país no pós-guerra, da maneira mais natural, direta e real possível.

Três anos depois do lançamento de Roma: Cidade Aberta, um outro filme chamou a atenção do mundo: Ladrões de Bicicleta. Dirigido por Vittorio De Sica, que antes de trabalhar como diretor, era mais conhecido e desfrutava de grande popularidade por conta de sua atuação em comédias. Os filmes que passou a dirigir eram completamente diferentes dos que ele havia feito como ator e isso pegou o público de surpresa.

Em Ladrões de Bicicleta estamos na Itália pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) está desempregado. Todos os dias ele sai para procurar emprego. Surge então uma oportunidade de trabalho, porém, é preciso que o empregado tenha uma bicicleta. Ricci tem uma. E não tem. Na verdade, ela está empenhada. Sua esposa Maria (Lianella Carell) resolve a situação e ele conquista a vaga.

No entanto, algo inesperado acontece. Logo no primeiro dia, a bicicleta é roubada. Ricci, com seu filho Bruno (Enzo Staiola), inicia então uma incansável busca pelas ruas da cidade à procura do importante veículo de trabalho.

A história que deu origem ao filme foi criada por Cesare Zavattini e se inspirou em um romance de Luigi Bartolini. Ele disse querer simplesmente acompanhar a rotina de um homem comum por 90 minutos. O roteiro final foi escrito pelo próprio Zavattini, junto com De Sica, Oreste Biancoli, Suso Cecchi D’Amico, Gherardo Gherardi, Adolfo Franci e Gerardo Guerrieri. E, apesar de ter tanta gente envolvida, é de uma coesão impressionante.

Quanto à narrativa, a câmara de De Sica não perde um momento sequer. Sempre atenta, ela mostra de maneira intensa todo o desespero de Ricci, algumas vezes filtrando isso pelo olhar do pequeno Bruno. O filme é carregado de sentimento e drama, mas nunca cai na pieguice. O cineasta nunca se faz valer de recursos fáceis, como uma música de fundo chorosa, por exemplo, para nos envolver ou comover.

Poucos trabalhos neorrealistas conseguiam agradar ao público. Os italianos, em sua maioria, eram atraídos pelos filmes hollywoodianos. De Sica aproveita para fazer uma sutil crítica ao domínio maciço de Hollywood. Isso ficou bem claro no trabalho que Ricci conseguiu: colar cartazes de filmes americanos. No caso, de Gilda, dirigido em 1946 por Charles Vidor e estrelado por Rita Hayworth. É como se o diretor jogasse na nossa cara a distância que separava o mundo mágico de Hollywood da dura realidade enfrentada pelos italianos naquele momento.

Curiosamente, os dois primeiros filmes a serem premiados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com o Oscar honorário de alta qualidade por provar ao mundo que o espírito criativo pode triunfar sobre as adversidades foram justamente Vítimas da Tormenta e Ladrões de Bicicletas. Ambos dirigidos por De Sica. Esse prêmio deu origem à categoria de melhor filme estrangeiro, criada oficialmente em 1957 e que teve outro filme italiano, A Estrada da Vida, de Federico Fellini, como primeiro vencedor.

Poucos filmes neorrealistas representaram o sofrimento pós-guerra mais claramente que Ladrões de Bicicleta. De Sica nos fez acompanhar o dia a dia de Ricci que, apesar dos reversos da vida, tentava manter sua dignidade. Após ter sua bicicleta roubada, ele procurou ajuda à polícia, à igreja e ao sindicato, e mesmo assim, não conseguiu reaver seu objeto de trabalho. Acompanhado por Bruno, seu filho, ele vagava pela cidade em uma busca inútil.

A crítica social de Ladrões de Bicicleta contrapõe a desintegração da confiança entre Ricci e Bruno. O clímax do filme acontece quando, desesperado, Ricci tenta roubar uma bicicleta ele mesmo. Bruno assiste em choque. Sua busca desmantelou suas ilusões em relação ao pai. Ricci é poupado da prisão, e Bruno, agora aceitando com grande pesar as fraquezas de seu pai, reconhece seu amor ao deslizar suas mãos nas de Ricci.

Nas eleições de 1948, ano do lançamento do filme, os partidos liberais e de esquerda foram derrotados nas votações. Paralelo a isso, a Itália passou por um momento de reconstrução. A renda nacional começou a superar os níveis de antes da guerra e o país se moveu gradativamente para uma economia europeia modernizada. A indústria cinematográfica descobriu que podia exportar filmes, até mesmo para os Estados Unidos, e não via nos filmes neorrealistas um espelho da verdadeira Itália.

Guido Andreotti, então vice-secretário de Estado encarregado da área de entretenimento, encontrou uma maneira de retardar o avanço dos filmes americanos enquanto também continha os excessos embaraçosos do Neorrealismo. Para isso, criou-se uma lei que entrou em vigor em 1949, não apenas estabelecendo limites importantes e cotas de tela como também provendo empréstimos para produtoras.

No entanto, para receber um empréstimo, um comitê do governo precisava aprovar o roteiro e filmes com “determinada” inclinação política eram recompensados com somas maiores de dinheiro. Um filme poderia ter a licença de exportação negada se “caluniasse a Itália”. A lei Andreotti, como ficou conhecida, criou uma espécie de censura de pré-produção.

A maioria dos historiadores de cinema defende a influência do Neorrealismo não apenas por suas atitudes políticas e sua visão de mundo, mas também por sua inovação narrativa e o prestígio internacional alcançado por seus cineastas trouxe uma atenção sem precedentes.

Em resumo, o neorrealismo não dependia menos de truques do que qualquer outro estilo cinematográfico. O que os diferencia, atesta Bordwell, é como contam uma história de maneira nova. Em Ladrões de Bicicleta, Ricci e Bruno por acaso avistam o ladrão próximo à casa do médico que haviam visitado. Tais desenvolvimentos de trama, ao rejeitar uma cadeia de eventos cuidadosamente motivada do cinema clássico, podem parecer mais objetivamente realistas, refletindo os possíveis encontros da vida cotidiana.

Em quase 60 anos de carreira, Vittorio De Sica atuou em mais de 160 películas, além de ter dirigido 35 obras e escrito o roteiro de 23 filmes. Como se isso não bastasse, De Sica, ao lado de Rossellini e Visconti, compôs a trinca criadora do movimento neorrealista italiano, que revolucionou o cinema mundial. Ladrões de Bicicleta, seu trabalho mais conhecido, não é apenas um dos maiores representantes do Neorrealismo. É também um dos mais importantes filmes da História do Cinema.

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Last modified: 9 de setembro de 2021

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