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quinta-feira, maio 23, 2013


O CAIXEIRO VIAJANTE

É impossível falar de documentários sem mencionar os irmãos Albert e David Maysles. Os dois são adeptos do que se convencionar chamar de Cinema-Verdade, movimento que tem por objetivo maior interferir o mínimo possível na realidade. Albert começou primeiro e de maneira inusitada. Formado em Psicologia, ele trabalhava como professor e sempre gostou muito de fotografar. No final dos anos 1950, ele viajou à então União Soviética (atual Rússia), por conta de um trabalho fotográfico de uma instituição mental. Isso despertou o interesse de uma emissora de TV que o contratou para produzir um documentário sobre o assunto. Isso foi o ponto de partida de seu envolvimento com o cinema. Ao lado do irmão mais novo, David, eles realizaram diversos curtas e especiais para televisão. O desejo de produzir um documentário de longa-metragem para o cinema se concretizou em 1968, quando foi lançado O Caixeiro-Viajante. O filme acompanha o dia-a-dia de quatro vendedores de bíblias caras. Fiéis ao propósito de retratar a realidade como ela é, os Maysles revelam as artimanhas utilizadas por eles para vender um produto que não é barato, para clientes que, na maioria dos casos não possuem as condições financeiras adequadas para um gasto como este. O Caixeiro-Viajante mostra um lado do sonho americano pouco visto nos filmes. Com uma equilibrada mistura de drama e humor, o filme destaca com vigor e originalidade o fator humano que existe em todas as histórias. Sejam elas grandes ou, como é o caso aqui, aparentemente pequenas. 

O CAIXEIRO VIAJANTE (Salesman - EUA 1968). Direção: Albert e David Maysles. Documentário. Duração: 85 minutos. Distribuição: VideoFilmes.

quarta-feira, maio 22, 2013


INSOLAÇÃO

Dois grandes nomes do teatro brasileiro, Daniela Thomas e Felipe Hirsch, uniram forças para realizar um longa-metragem: Insolação. Daniela já havia trabalhado com cinema ao dividir a direção de Terra Estrangeira e O Primeiro Dia, com Walter Salles. Para Felipe, foi a estréia atrás das câmaras. Inspirado em diversos contos russos do século XIX, o roteiro foi escrito pela dupla Will Eno e Sam Lipsyte e coube aos diretores inserirem outras referências russas ao filme. O título não poderia ser mais adequado. Suas personagens estão em busca de um amor inalcançavel e esse desejo vem carregado de uma melancolia que, aliada ao forte sol de Brasília, transforma tudo em uma miragem febril. Insolação não é um filme fácil. Da mesma maneira que os contos e os filmes russos não são fáceis. É possível que a obra pareça lenta e empostada em algumas passagens. Mas, isso faz parte da experiência proposta pelos diretores. Cabe ao espectador aceitar ou não o desafio.     

INSOLAÇÃO (Brasil 2009). Direção: Daniela Thomas e Felipe Hirsch. Elenco: Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Maria Luísa Mendonça, Leandra Leal e Emilio Di Biasi. Duração: 109 minutos. Distribuição: Europa Filmes.

terça-feira, maio 21, 2013


TERRA PROMETIDA

Eu poderia simplesmente escrever que Terra Prometida é um filme obrigatório. Mas, isso, seria muito impositivo e radical. Melhor argumentar sobre as razões que tornam este filme dirigido pelo cineasta polonês Andrzej Wajda importante. Primeiro, porque Wajda é um dos grandes mestres do Cinema. Neste filme, com roteiro escrito por ele mesmo, baseado no romance de Wladyslaw Stanislaw Reymont, ele conta uma história que se passa na Polônia no início do século XX. Somos apresentados a três amigos de infância que têm um sonho em comum: montar uma fábrica de tecidos. Como não possuem o dinheiro necessário para o empreendimento, decidem explorar o sentimento que uma rica mulher judia tem por um deles. Segundo, por se tratar de uma complexa análise sobre o ser humano e sua ambição. Tudo isso em um período de grandes mudanças no mundo, como um todo, e na Polônia, em particular. Wajda é um diretor que sempre procurou tratar de questões de seu país nos filmes que realizou. Não é diferente em Terra Prometida. E terceiro, o simbolismo bíblico que o título evoca se revela fundamental nessa obra de forte impacto narrativo. Se isso não o convenceu ainda, veja-o de qualquer maneira. Afinal, é obrigatório.
 
TERRA PROMETIDA (Ziemia Obiecana - Polônia 1975). Direção: Andrzej Wajda. Elenco: Daniel Olbrychski, Wojciech Pszoniak, Andrzej Seweryn, Anna Nehrebecka, Franciszek Pieczka, Tadeusz Bialoszczynski e Bozena Bykiel. Duração: 179 minutos. Distribuição: Lume.

segunda-feira, maio 20, 2013


VEJO VOCÊ NO PRÓXIMO VERÃO

Há quem defenda que os melhores diretores são aqueles que antes trabalharam como atores. Não acredito nessa suposição como integralmente verdadeira. Existem, e bastante, grandes diretores que nunca atuaram antes. Mas, é preciso dizer, existem também atores que se tornaram excelentes cineastas. E Philip Seymour Hoffman é o mais novo membro desse seleto clube. E o melhor, ele tomou a acertada decisão de não tentar reinventar a roda. Vejo Você no Próximo Verão, seu filme de estréia como diretor, é singelo, criativo e tem aquela chama especial que revela que quem está por trás da câmara tem potencial. O roteiro se baseia na peça de Robert Glaudini, que também escreveu a adaptação para o cinema. A trama gira em torno de dois casais. Clyde (John Ortiz) e Lucy (Daphne Rubin-Vega) armam um plano para que seus amigos Jack (Philip Seymour Hoffman) e Connie (Amy Adams) se conheçam. É curioso perceber a maneira como as relações dos casais se desenvolvem a partir do início da trama. Hoffman demonstra grande habilidade ao desenvolver as personagens. Vejo Você no Próximo Verão não é aquele tipo de filme que vai entrar para a História do Cinema. E, obviamente, nunca deve ter sido essa a intenção do diretor. Trata-se de um filme simples, como foi o início da carreira de Hoffman como ator. Vendo hoje o grande ator que ele se tornou, podem ter certeza, está nascendo um grande diretor.

VEJO VOCÊ NO PRÓXIMO VERÃO (Jack Goes Boating - EUA 2010). Direção: Philip Seymour Hoffman. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Amy Ryan, John Ortiz, Thomas McCarthy, Richard Petrocelli e Daphne Rubin-Vega. Duração: 91 minutos. Distribuição: Imovision.

domingo, maio 19, 2013


TOMBOY

Qual seria o significado da palavra "tomboy"? De uma maneira bem simples, a expressão se refere a uma menina que se comporta como menino. É preciso deixar claro que não há relação, em boa parte dos casos, com a questão da orientação sexual. No caso do filme francês Tomboy, escrito e dirigido em 2011 pela cineasta Céline Sciamma, o debate se estabelece mais em relação à busca de uma identidade. Laure (Zoé Héran, fantástica) é uma menina de dez anos de idade. Ela acabou de se mudar com sua família para um novo bairro. Sua família é harmoniosa e inteiramente "do bem". Laure vê os meninos brincando e, para se enturmar, se apresenta a eles como Michael. Ninguém estranha. A aparência andrógina de Laure ajuda no processo. Um dos grandes achados do filme é tratar o assunto da transição da infância para a adolescência por um ângulo inusitado. A mentira que Laure cria em torno de si fica ainda mais complicada por conta de sua amizade com Lisa (Jeanne Disson), uma menina que joga bola com os garotos da rua. Outro aspecto interessante da história é a maneira como a família de Laure lida com a situação criada pela filha. Tomboy não se deixa levar por soluções fáceis. E também não procura justificar nada. Aqui impera a sutileza. E no final, Sciamma, em uma jogada de mestre, passa a "bola" para nós, espectadores.      

TOMBOY (Tomboy - França 2011). Direção: Céline Sciamma. Elenco: Zoé Héran, Sophie Cattani, Mathieu Demy, Jeanne Disson, Malonn Lévana, Rayan Boubekri e Yohan Vero. Duração: 84 minutos. Distribuição: Europa Filmes.

sábado, maio 18, 2013


MENINOS NÃO CHORAM

A cineasta americana Kimberly Peirce começou a carreira no cinema dirigindo curtas-metragens. Em 1999 ela realiza seu primeiro longa, Meninos Não Choram, e chamou a atenção de todo o mundo. O roteiro, escrito por ela junto com Andy Bienen, se baseia na história real de Teena Brandon, uma adolescente que inverte a ordem de seu nome e se transforma em Brandon Teena. Ela foge de casa e se muda para uma pequena cidade do interior do estado de Nebraska. Lá, ela vive como homem e sente, pela primeira vez, a sensação de poder ser quem ela realmente é. Porém, o que parecia ser o paraíso, se transforma por inteiro. Hilary Swank, que já vinha tentando, há quase uma década, encontrar bons papéis na televisão e no cinema, teve em Meninos Não Choram sua grande chance de reconhecimento. Seu trabalho é irretocável, para dizer o mínimo. Trabalho que foi devidamente premiado com o Oscar de melhor atriz naquele ano. A câmara de Peirce também não se deixa levar pelo sensacionalismo que o tema proposto poderia suscitar. O filme é seco e direto, tipo um "soco no estômago". O drama vivido por Teena/Brandon é palpável, nos envolve e sensibiliza. Para um filme de diretora estreante e que consegue tratar uma questão delicada sem cair em clichês, não há nada mais a dizer. 

MENINOS NÃO CHORAM (Boys Don't Cry - EUA 1999). Direção: Kimberly Peirce. Elenco: Hilary Swank, Chloë Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III, Alison Foland, Alicia Goranson, Matt McGrath, Rob Campbell e Jeannetta Arnette. Duração: 118 minutos. Distribuição: Fox.

sexta-feira, maio 17, 2013


MADAME SATÃ

Um dos diretores mais talentosos da nova geração de realizadores brasileiros, Karim Aïnouz nasceu no Ceará, filho de mãe brasileira e pai argelino. Começou a trabalhar com cinema em 1992, dirigindo curtas e documentários. Sua estréia em longas acontece em 2002 com Madame Satã. O roteiro foi escrito por ele, junto com Marcelo Gomes, Sérgio Machado e Maurício Zacharias. Conta uma história que se passa no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, na década de 1930. Somos apresentados a João Francisco dos Santos, também conhecido como Madame Satã, um homem de muitas faces: malandro, artista, cozinheiro, presidiário, negro, pobre e homossexual. Vivido pelo ator Lázaro Ramos, em seu primeiro papel de protagonista no cinema, acompanhamos seu dia-a-dia e sua intimidade. Madame Satã trata do homem antes de ele se transformar em mito. O cinema de Karim Aïnouz situa-se na rara categoria de "inclassificável". Assim como Almodóvar, suas obras são únicas e marcadas por uma forte carga autoral. Premiado em diversos festivais internacionais, o filme sempre provocou acalorados debates por onde passou, principalmente por causa das fortes cenas de sexo.

MADAME SATÃ (Brasil 2002). Direção: Karim Aïnouz. Elenco: Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo, Flávio Bauraqui, Emiliano Queiroz, Ricardo Blat, Fellipe Marques, Renata Sorrah e Gero Camilo. Duração: 105 minutos. Distribuição: LK-Tel Video.